Pesquisas e Elaboração de Conteúdos Específicos para o Tópico "Entrevistas"
Entrevista com Emilia Ferreiro
Entrevista com Emilia Ferreiro
Para a psicolinguista argentina, o que se espera de um leitor muda com
o tempo. Na era da internet, seletividade e rapidez são características
essenciais.
Denise Pellegrini, de Brasília
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| Emilia Ferreiro. Foto: Tina Coelho |
Nos anos 70, ela
revolucionou a alfabetização ao explicar como as crianças aprendem. Passou a
defender a utilização de textos variados, em substituição às cartilhas. Após a
polêmica inicial, suas teses se tornaram referência internacional. A fama não a
desviou, no entanto, da preocupação em desvendar o processo de aquisição da
leitura e da escrita. Aos 64 anos, Emilia Ferreiro agora avalia a interferência
das inovações trazidas pela internet. "Todo profissional deve querer saber
sempre mais", ensina. "Se não há inquietude, repetimos coisas que
podem estar ultrapassadas." Em abril, a psicolinguista argentina (que vive
no México) passou pelo Brasil e concedeu a seguinte entrevista a NOVA ESCOLA.
No livro Cultura
Escrita e Educação, a senhora afirma que adora pesquisar e descobrir que
entendeu algo que a intrigava. O que a deixa intrigada atualmente?
EMILIA FERREIRO: Continuo tentando compreender melhor o funcionamento dos
sistemas e das tecnologias de escrita. Indagações surgem a respeito dos modos
de comunicação e estilos que estão sendo criados. Um exemplo é o chat, que
parece um intercâmbio informal, cara a cara, só que por texto. Outro é o
e-mail, que não é uma carta em papel nem um telegrama. Essas novas formas de diálogo possuem
propriedades que não conhecemos. São temas a ser pesquisados, assim como a
interface entre a aquisição da escrita com letras e com números...
Como isso se dá?
EMILIA FERREIRO: As duas são ensinadas simultaneamente porque a escola e o
ambiente pedem. Já conhecemos bastante o sistema de aquisição da leitura com
letras e a maneira de escrever números em situações vinculadas a representações
de quantidade. Quero averiguar como se descobre quando usar um ou outro. Quando
escrevo casa, leio casa e posso traduzir para house, se souber inglês. No
entanto, se escrevo 5, posso ler cinco ou five. Nesse caso não está escrito o
nome do número mas o sentido que ele passa. E esse sentido pode ser passado em
qualquer língua. Não posso redigir a palavra casa com números, mas a palavra
cinco posso escrever também com um algarismo. É interessante ver como crianças
muito pequenas, de 4 ou 5 anos, lidam com isso.
O professor deve tentar desvendar problemas em seu dia-a-dia?
EMILIA FERREIRO: Não. O ofício do pesquisador e o do professor são
distintos. Digo isso porque exerço os dois. Quando estou ensinando, minha
atitude sobre os problemas é diferente da que tenho quando estou pesquisando. É
importante ensinar os alunos a pesquisar, mas isso é parte de meu trabalho de
professora.
Mas não é também papel do docente buscar novos conhecimentos?
EMILIA FERREIRO: Com certeza. Só que isso é diferente de pesquisar. Querer
saber sempre mais deve ser próprio de qualquer profissional. Um médico também
tem de se atualizar e não se contentar com o que aprendeu na universidade. Se
não há uma certa inquietude em continuar descobrindo coisas novas terminamos
repetindo as antigas e o que era válido há vinte anos não continua
necessariamente bom hoje.
O significado de saber
ler e escrever também muda com o tempo?
EMILIA FERREIRO: Usamos esses mesmos verbos na Grécia clássica, na Idade
Média, na revolução industrial ou na era da internet. Por isso, temos a
impressão de que designam a mesma coisa. O real significado, no entanto, vem se
modificando. Ambos têm a ver com marcas visuais, mas o que se espera do leitor
é determinado socialmente, numa certa época ou cultura. Na Antiguidade clássica
não se esperava o mesmo que no século XVIII, nem o que se espera agora.
O que determina a eficiência de um leitor na era da internet?
EMILIA FERREIRO: O trabalho na internet exige rapidez na leitura e muita
seletividade, porque não se pode ler tudo o que está na tela. E a capacidade de
selecionar não é algo que, há alguns anos, fosse uma exigência importante na
formação do leitor. No contexto escolar, não tinha lugar preponderante mesmo.
Na rede mundial de computadores, as páginas estão cheias de coisas que não têm
relação com o que procuro e existe a possibilidade de um texto me conduzir a
outros por meio de um click. Além disso, quando tenho um livro em mãos e o abro
em qualquer página, sei claramente se é o começo, o meio ou o fim. Quando abro
uma página na internet nem sempre tenho noção de onde estou.
Mas os jovens têm facilidade para se adaptar a essas mudanças...
EMILIA FERREIRO: Eles aprenderam a usar a internet sozinhos e rapidamente, sem
instrução escolar nem para escolar. Eles conhecem essa tecnologia melhor que os
adultos/ os alunos sabem mais do que seus mestres. Essa é uma situação de
grande potencial educativo, porque o professor pode dizer: "Sobre isso eu
não sei nada. Você me ensina?" A possibilidade de uma relação educativa realmente
dialógica é fantástica. Mas o docente não está acostumado a fazer isso e, num
primeiro momento, fica com muito medo de não poder ensinar. Em casa, ele
recorre aos filhos. No espaço público, na escola, ele tem mais
dificuldades.
Além
da questão tecnológica, existe a da língua. A senhora acha que quem não souber
inglês será um analfabeto nesta era da internet?
EMILIA FERREIRO É
preciso aprender o inglês, sem dúvida, mas não só esse idioma. Nestes tempos de
globalização, vemos ao mesmo tempo um movimento de homogeneização (de um lado)
e grupos que manifestam um desejo de manter a própria identidade (de outro). As
duas coisas estão funcionando simultaneamente. No início da internet tínhamos a
impressão de que ela seria uma das tantas maneiras de converter o inglês na
única língua de comunicação. Hoje a situação mudou bastante. Há cada vez mais
uma diversidade de idiomas na rede. Temos duas direções a seguir: consultar
somente sites na nossa língua ou tomar consciência de que a rede nos dá acesso,
por exemplo, a jornais escritos em países distintos e procurar
entendê-los.
EMILIA FERREIRO As
mudanças educativas são lentas. É muito fácil transformar uma escola pequena,
privada, que tenha desejo de evolução. Mas num sistema educativo municipal ou
estadual é mais difícil. Tendo em conta a complexidade da realidade brasileira
e levando em consideração que a difusão da teoria não foi similar em todas as
regiões, eu diria que já aconteceram muitas coisas por aqui.
Quais as mais significativas?
EMILIA FERREIRO: No
Brasil havia uma espécie de obsessão em montar turmas homogêneas. Tenho a
impressão de que esse não é mais um problema. E se isso realmente aconteceu, é
um grande avanço. A homogeneidade é um mito que nunca se alcança. Eu posso
aplicar uma prova, dizer que vinte estudantes são iguaizinhos e colocá-los
todos juntos para trabalhar. Daqui a uma semana eles não serão mais iguais,
porque os ritmos de desenvolvimento são muito variados. Uma coisa são os ritmos
individuais, outra, as etapas de desenvolvimento.
Com relação às etapas de desenvolvimento, você crê que sua importância
já foi assimilada?
EMILIA FERREIRO: Num
primeiro momento, houve apenas a troca de rótulos. Os fracos passaram a ser
chamados de pré-silábicos. Os que estavam no meio do processo eram os silábicos
e os que eram fortes foram classificados como alfabéticos. Alguns anos depois
ficou mais claro que os rótulos novos permitiam ver de outra maneira o
progresso das crianças, mostravam que elas estavam aprendendo. É desesperador
estar diante de um aluno e dizer "ele não sabe", "ele ainda não
sabe". Quando se pode visualizar as mudanças como um progresso na
aprendizagem, tudo muda. Primeiro porque o esforço de aprender é reconhecido;
segundo porque há a satisfação de ver avanços onde antes não se enxergava nada.
Ainda hoje chegam cartas à redação de NOVA ESCOLA perguntando qual a
idade ideal para iniciar a alfabetização...
EMILIA FERREIRO: Constatei
que, atuando de forma inteligente, pode-se alfabetizar aos 5 anos, aos 6 ou aos
7. É preciso oferecer oportunidade para os menores. Alguns vão aprender muito,
outros nem tanto. A idéia de que eu, adulto, determino a idade com que alguém
vai aprender a escrever é parte da onipotência do sistema escolar que decide em
que dia e a que horas algo vai começar. Isso não existe. As crianças têm o mau
costume de não pedir permissão para começar a aprender.
O que um alfabetizador não pode deixar de fazer em classe?
EMILIA FERREIRO: Ler em voz alta. Especialmente se as turmas
forem pobres, vindas de lugares em que há poucas pessoas letradas. Essa poderá
ser a primeira vez que ela passa por uma experiência assim. O texto, no
entanto, tem de ser bom e lido com convencimento. Esse aluno de 6 ou 7 anos vai
presenciar um ato quase mágico. Vai escutar um idioma conhecido e ao mesmo
tempo desconhecido, porque a língua, quando escrita, é diferente. Essa maneira
de trabalhar é muito melhor do que usar as cartilhas e as famílias silábicas.
EMILIA FERREIRO: Certa
vez um editor brasileiro me acusou de estar arruinando o negócio de cartilhas,
e parece que ele tinha razão. Se tenho mesmo relação com a queda na produção
desses livros, estou muito orgulhosa. Eles eram de péssima qualidade,
horríveis, assustadores. Eram pura bobagem. Apesar disso, há vinte anos parecia
um sacrilégio, no Brasil, dizer que a família silábica não era a melhor maneira
de trabalhar. Tenho a impressão de que isso mudou e de que esse é um caminho
sem volta. Para ensinar a ler e escrever é necessário utilizar diferentes
materiais. Um livro só não basta. É preciso utilizar livro, revista, jornal,
calendário, agenda, caderno, um conjunto de superfícies sobre as quais se
escreve. A maneira como um jornal é redigido não é a mesma que se encontra num
livro de Geografia ou História.
Como deve agir o professor em áreas rurais, onde o contato com a língua
escrita é muito menor?
EMILIA FERREIRO: Ele
não pode desperdiçar nem um minuto do tempo em que sua turma está na escola,
porque cada minuto é muito precioso. Terminado o período da aula, o contato com
a escrita quase desaparece, sobretudo se for numa região em que não haja
maquinários sofisticados, que exigem a leitura de manuais, ou onde materiais
impressos praticamente não existam.
EMILIA FERREIRO: A
América Latina está conseguindo levar praticamente todas as crianças para a
escola, mas nem todas continuam estudando nem aprendem algo que justifique sua
permanência ali.
Ou seja, ainda há o risco de o continente continuar formando
analfabetos funcionais.
EMILIA FERREIRO: Esse
problema ocorre no mundo inteiro, ainda que com nomes diferentes. Na França,
por exemplo, há uma distinção entre o iletrado e o analfabeto. Este não teve
uma escolaridade suficientemente prolongada. O primeiro teve essa oportunidade,
mas não pratica nem a leitura nem a escrita. Então, poucos anos mais tarde, lê
com dificuldade e evita escrever. Países que já resolveram o problema da
escolaridade obrigatória têm iletrados; os que não possibilitaram à população a
escolaridade básica têm analfabetos.
O Brasil encontrou o caminho para combater esse problema?
EMILIA FERREIRO: No
Brasil, aparentemente, está em curso uma mudança sensível em relação à
escolarização. Muito mais crianças e jovens em idade escolar estão nas salas de
aula. Esse é o primeiro passo. Agora, vem o mais importante: desafio da
qualidade, da aprendizagem. Não basta ocupar todas as carteiras. É preciso
ensinar.
Quer saber mais?
Cultura
Escrita e Educação, Emilia Ferreiro, 179 págs., Ed. Artmed, tel. (51) 330-3444,
24 reais
Psicogênese da Língua Escrita, Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, 300 págs., Ed. Artmed, 36 reais Publicado em Junho 2001, com o título O ato de ler evolui
Psicogênese da Língua Escrita, Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, 300 págs., Ed. Artmed, 36 reais Publicado em Junho 2001, com o título O ato de ler evolui
FONTE:http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/ato-ler-evolui-423536.shtml
Edgar Morin: é preciso educar os educadores
O
Globo: Na sua opinião, como seria o modelo ideal de educação?
Edgar Morin: A figura do professor é
determinante para a consolidação de um modelo “ideal" de educação. Através
da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a
presença de um professor. Então eu pergunto, o que faz necessária a presença de
um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses
conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um
professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma resposta na Internet,
ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo
pesquisado.
É preciso desenvolver o senso crítico
dos alunos. O papel do professor precisa passar por uma transformação, já que a
criança não aprende apenas com os amigos, a família, a escola. Outro ponto importante:
é necessário criar meios de transmissão do conhecimento a serviço da
curiosidade dos alunos. O modelo de educação, sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das
crianças.
O Globo: Quais são
os maiores problemas do modelo de ensino atual?
Edgar Morin: O modelo de ensino que foi instituído
nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente
através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e
vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola
não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o
que é um reducionismo. O conhecimento complexo evita o erro, que é cometido,
por exemplo, quando um aluno escolhe mal a sua carreira. Por isso eu digo que a
educação precisa fornecer subsídios ao ser humano, que precisa lutar contra o
erro e a ilusão.
O Globo: O senhor
pode explicar melhor esse conceito de conhecimento?
Edgar Morin: Vamos pensar em um conhecimento mais
simples, a nossa percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão comigo, essa
visão é uma percepção da realidade, que é uma tradução de todos os estímulos
que chegam à nossa retina. Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que
estão longe são pequenas, e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a
reconhecermos essa alteração da realidade, já que todas as pessoas apresentam
um tamanho similar.
Todo conhecimento é
uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem
o risco do erro. Existe outro ponto vital que não é abordado pelo ensino: a
compreensão humana. O grande problema da humanidade é que todos nós somos
idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas ideias que não são
compatíveis. A crise no ensino surge por conta da ausência dessas matérias que
são importantes ao viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado
à sociedade, mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.
O Globo: O que é a
transdisciplinaridade, que defende a unidade do conhecimento?
Edgar Morin: As disciplinas fechadas impedem a
compreensão dos problemas do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião,
é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão de uma visão de
mundo mais complexa. O meu livro “O homem e a morte" é tipicamente transdisciplinar,
pois busco entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos
conhecimentos da pré-história, da psicologia, da religião. Eu precisei fazer
uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos saberes de
áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.
O Globo: Como a associação entre a razão e a afetividade pode ser
aplicada no sistema educacional?
Edgar Morin: É preciso estabelecer um jogo
dialético entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão pura não existe. Um
matemático precisa ter paixão pela matemática. Não podemos abandonar a razão, o
sentimento deve ser submetido a um controle racional. O economista, muitas
vezes, só trabalha através do cálculo, que é um complemento cego ao sentimento
humano. Ao não levar em consideração as emoções dos seres humanos, um
economista opera apenas cálculos cegos. Essa postura explica em boa parte a
crise econômica que a Europa está vivendo atualmente.
O Globo: A
literatura e as artes deveriam ocupar mais espaço no currículo das escolas? Por
quê?
Edgar Morin: Para se conhecer o ser humano, é
preciso estudar áreas do conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a
psicologia. Mas a literatura e as artes também são um meio de conhecimento. Os
romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou
Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e
contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a
viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de
Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que
nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes
não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário.
O Globo: Qual a sua
opinião sobre o sistema brasileiro de ensino?
Edgar Morin: O Brasil é um país extremamente
aberto a minhas ideias pedagógicas. Mas, a revolução do seu sistema educacional
vai passar pela reforma na formação dos seus educadores. É preciso educar os
educadores. Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com
outros campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor
possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão precisam ter
a consciência dessa missão.
Rubem Alves: "A escola de hoje em dia é chatíssima. Isso
explica o desinteresse das crianças"
Em entrevista concedida em 2009, um dos mais importantes
educadores brasileiros falou sobre a escola de hoje, a relação aluno-professor
e uma alternativa para o vestibular. "Proponho sorteios", afirma
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Foto: Divulgação
sem mais questões ligadas ao dia a dia das crianças |
Rubem Alves (1933-2014) foi um consagrado escritor brasileiro, autor de livros como A Escola Com Que Sempre Sonhei e Ao Professor, Com o Meu Carinho, além de importante pensador e crítico da Educação do nosso país. Em maio de 2009, concedeu com exclusividade uma entrevista ao Educar para Crescer, quando questionou o modelo clássico de ensino, no qual o professor se preocupa apenas em passar conteúdos aos seus alunos. "Esse modelo não funciona mais. [...] É preciso saber quais perguntas os alunos estão fazendo. O ensino tem a ver com a capacidade de fazer perguntas. Isso desenvolve a inteligência", defende.
Para o também psicanalista e professor emérito da Unicamp, as escolas de hoje
em dia estão muito desinteressantes, sobretudo porque não estão lidando com
questões cruciais da vida das crianças, ou seja, não estão aproveitando o seu
entorno. "As crianças têm interesse por aquelas coisas ao alcance de suas
mãos. Não adianta trabalhar com abstrações", explica.
Defensor convicto do fim do vestibular, Rubem Alves propôs uma forma
alternativa de selecionar alunos que querem ingressar numa universidade.
"Eu proponho sorteios", radicalizou o educador, que logo explicou:
"Seria um exame nacional, do tipo Enem, para ver se os alunos atingem o
mínimo de conhecimento. O exame teria, portanto, duas notas: passou ou não
passou. Aqueles que tivessem passado por essa fase, iriam para o sorteio".
Mas por que um sorteio? Segundo ele, para eliminar a questão das cotas, uma vez que as minorias discriminadas teriam tanta chance quanto qualquer outro aluno. "As cotas criam muita raiva entre os que entraram assim e quem entrou por esforço próprio", finalizou.
A escola hoje em dia é muito enfadonha para a criança?
Rubem Alves: A escola é chatíssima. Isso explica o desinteresse das crianças. Para se
aprender, a gente tem que lidar com aquelas questões que são cruciais para a
vida. As crianças têm questões que são cruciais para a vida delas. A escola não
está lidando com elas. Não tendo interesse da escola, não há mágica para que os
professores convençam os alunos a estudar. Com honrosas exceções - tem gente se
esforçando para mudar isso - a norma é que as escolas são chatas.
O que as crianças deveriam aprender
na educação básica?
Rubem Alves: O que deveria determinar o programa é o entorno da pessoa que vai
aprender. Eu tenho de aprender o meu entorno. Veja uma coisa interessante: eu
descobri que as crianças muito pequenas fazem mapas. Uma criança de dois anos
faz mapas, o que é um negócio complicado. Na sua casa, ela não anda feito
barata tonta, mas sabe perfeitamente qual corredor dá na sala, que dali você
sai para a cozinha. Então ela está aprendendo o seu entorno, que é o círculo vital
da criança.
A casa é um ambiente ideal para a
aprendizagem?
Rubem Alves: Sim. Eu imaginei um programa que tomasse a casa como laboratório. Por
exemplo, na sala, você aprende ângulos, linhas, proporções. Na cozinha, você
aprende química. No banheiro, há lições fantásticas de ecologia, de ambiente.
Eu aprendi isso viajando com meus filhos. Eles não tinham o menor interesse
pelos cenários maravilhosos que passavam pela janela. Tinham interesse por eles
mesmos no banco de trás, um brigando com o outro. As crianças têm interesse por
aquelas coisas ao alcance de suas mãos. Não adianta trabalhar com abstrações. Eu
fiz um livro que as crianças adoram chamado "Vamos construir uma
casa?".
O concreto torna a aprendizagem mais
agradável?
Rubem Alves: Muito mais agradável. Você vê as coisas, faz as coisas. Eu falo isso a
partir da minha própria experiência. Quando era menino, aprendi a usar todas as
ferramentas de casa. Pegue a questão da física, por exemplo. As fórmulas da força,
da velocidade, da aceleração são uma abstração total. Se você pegar um prego,
colocar sobre uma tábua, puser um martelo em cima e perguntar para uma
garotinha: vai martelar? Ela vai dizer: não, precisa bater. Quando ela diz
precisa bater, está anunciando a lei. A força é massa vezes aceleração. Então,
eu penso em ensinar física mecânica com a caixa de ferramentas, que é uma coisa
que tem na casa. Por que não se trabalham os materiais que existem numa casa?
A escola como único ambiente
educacional é limitante ao aluno?
Rubem Alves: Em São Paulo, há um exemplo típico disso: o projeto Aprendiz, do
Gilberto Dimenstein. As crianças aprendem nas ruas, nas coisas que estão ao
redor dela. Uma das razões para você ter escola é a razão administrativa. É um
lugar onde você põe a carneirada toda e trabalha com todos eles ao mesmo tempo.
Não é uma razão pedagógica. Agora se você quer aprender sobre a fazenda, tem
que ir até lá, colocar a mão na terra, mexer com as plantas. É preciso ir ao
lugar para conhecer, porque a escola, querendo ou não, é um ambiente
artificial. A vida não está acontecendo lá.
Os professores deveriam ouvir mais os alunos e não apenas impor aquilo que está na grade curricular?
Rubem Alves: O Bruno Bettelheim foi um dos grandes educadores do século passado. Quando estava bem velho, numa entrevista, disse que os professores na escola dele tentavam ensinar aquilo que eles queriam ensinar, do jeito que eles queriam ensinar, mas ele não queria aprender. O aluno precisa se sentir respeitado pelo professor. É uma questão fundamental. A minha imagem de professor é ele falando e os alunos quietos. O professor está sempre dizendo "silêncio, silêncio". É preciso saber quais perguntas os alunos estão fazendo. O ensino tem a ver com a capacidade de fazer perguntas. Isso desenvolve a inteligência. Seria bom que isso fosse ensinado nas faculdades de pedagogia e educação.
Como preparar melhor o professor?
Rubem Alves: A alma de tudo é o professor. Não adianta programas novos, novas leis,
se o professor tiver a cabeça velha. Em nosso modelo clássico, o professor é
aquele que sabe a matéria. Ele vai cobrar a matéria. Esse modelo não funciona
mais. O professor tem que ser aquele que pergunta, que está junto com os
alunos. Não dá respostas, mas provoca os alunos para ver se eles pensam por conta
própria.
O sistema de repetência nas
escolas é eficiente?
Rubem Alves: Repetir um ano inteiro porque você fracassou em uma disciplina, ou duas,
é um castigo muito grande, você não acha? Não tem o menor sentido. Mas eu não
concordo com o sistema de aprovar todo mundo, de qualquer maneira. Apesar
disso, o sistema de repetência é cruel e antipedagógico, além de causar
irritação nos alunos.
Como incentivar a leitura em uma
criança?
Rubem Alves: Às vezes as pessoas me perguntam o que fazer para adquirir o hábito da
leitura. Eu digo nada, porque hábito tem a ver com escovar dente, cortar unha,
tomar banho. É algo que você faz mecanicamente. É preciso, no entanto,
desenvolver o prazer da leitura. Eu tive um professor de literatura, um sujeito
extraordinário, que chegou na classe um dia e falou: vocês não precisam se
preocupar com presença, quem não quiser assistir aula, não precisa. Ninguém se
preocupe com passar de ano, todos vocês já passaram de ano. E por fim, completou:
agora que essas questões irrelevantes foram resolvidas, vamos tratar do que
importa, que é a literatura.
Ele não ensinava as
escolas literárias, análise sintática. Contava as grandes histórias da
literatura mundial, com uma paixão comovente. Ele nunca pediu para a gente ler.
Eu só me dei conta disso depois de velho. Ele sabia que, se a gente fosse ler,
ia odiar a literatura por uma razão muito simples: não sabíamos ler. A gente
sabia juntar letras. A minha sugestão é que os professores leiam para os
alunos. Assim eles vão ter prazer pela leitura. Ler é uma arte tão complicada
quanto tocar piano. O professor tem que dominar a técnica da leitura para
surfar em cima das palavras. É preciso que as prefeituras organizem programas
de leituras.
Você concorda com os livros que
normalmente são indicados para o vestibular?
Rubem Alves: Quando você diz que um livro vai ser objeto de exame, já estragou a
leitura do livro. A leitura é um exercício de vagabundagem. O aluno não pode
ficar tomando anotações e pensando o que vai cair na prova. Outro problema é
que quando fazem as listas de livros para o vestibular, começam a surgir
resumos das obras. Em vez de ler o livro, o aluno lê o resumo. É a mesma coisa
de fazer um resumo da Nona Sinfonia. Um livro não pode ser resumido.
Você já chegou a defender o fim do
vestibular. Qual seria a alternativa para o aluno ingressar numa universidade?
Rubem Alves: Agora está aparecendo uma alternativa, eu fiquei muito feliz com isso. Mas
a minha proposta é um pouco mais radical. Eu proponho sorteios. Seria um exame
nacional, do tipo Enem, para ver se os alunos atingem o mínimo de conhecimento,
sem ser classificatório. O exame teria, portanto, duas notas: passou ou não
passou. Aqueles que tivessem passado por essa fase, iriam para o sorteio. O
sorteio eliminaria a questão de cotas porque as minorias discriminadas teriam
tanta chance quanto o outro. As cotas criam muita raiva entre os que entraram
assim e quem entrou por esforço próprio. Se houver sorteio, esse problema não
existirá.
E quem não for sorteado?
Rubem Alves: Isso é inevitável. Alguns vão ficar de fora. E vai haver injustiça, mas
uma injustiça menor do que a que existe agora. A que existe agora começa pela
deformação do processo de pensamento.




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