DANÇA: Expressão pelo movimento
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| Foto: Tatiana Cardeal |
Explorar o caráter expressivo do movimento é uma das premissas do ensino
de dança. O coreógrafo e pesquisador da linguagem Rudolf Laban (1879-1958), uma
das grandes referências na área, categorizou os movimentos em dois tipos: os
funcionais - escovar os dentes, subir escadas ou escrever na lousa, por exemplo
- e os expressivos. Nesses últimos, o objetivo é transmitir uma ideia ou
sensação, como o estranhamento, a curiosidade, a beleza ou o humor.
À dança, costuma-se associar os movimentos de natureza expressiva - como se vê
no balé clássico. O professor, porém, deve considerar (e explorar!) uma
característica das crianças que permite enriquecer as atividades em sala:
elas não distinguem necessariamente os movimentos funcionais dos expressivos. "Entre
os pequenos, as atividades cotidianas mais simples são carregadas de
brincadeira, de exploração de movimento, de dança", diz Fabio Brazil,
dramaturgo da companhia Caleidos, em São Paulo. "Eles ainda não criaram
barreiras entre os dois tipos de gestos."
Para o dramaturgo, um bom caminho para explorar a linguagem na escola é
justamente investir no rompimento de qualquer distinção entre os
movimentos cotidianos e aqueles considerados "bonitos" pelo senso
comum. A dança moderna e a contemporânea trabalham nessa perspectiva. "Um
gesto do dia-a-dia trazido para o contexto de uma coreografia - em uma
repetição dele, por exemplo - ganha um sentido expressivo", explica.
"É só lembrar da cena de Charles Chaplin no filme Tempos Modernos, em que ele
transforma o ato de apertar parafusos em uma expressão de crítica e
humor."
Dança na escola: uma educação pra lá de física
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| As crianças ajudam a criar a coreografia: inspiração na cultura popular. Foto: Karine Basilio |
Dançar é uma das maneiras mais divertidas e adequadas para ensinar, na
prática, todo o potencial de expressão do corpo humano. Enquanto mexem o
tronco, as pernas e os braços, os alunos aprendem sobre o desenvolvimento
físico. Introduzir a dança na escola equivale a um tipo de alfabetização.
"É um ótimo recurso para desenvolver uma linguagem diferente da fala e da
escrita, aumentar a sociabilidade do grupo e quebrar a timidez", afirma
Atte Mabel Bottelli, professora da Faculdade Angel Viana e da Universidade
Federal do Rio de Janeiro. E o melhor: o trabalho pode ser feito com turmas de
todas as idades e de forma interdisciplinar, envolvendo as aulas de Artes e de
Educação Física. O mais importante, no entanto, não é convencer a turma a
ensaiar para se apresentar no final do ano. "A prioridade é levar a
criança a ter consciência corporal e entender como o corpo dela se relaciona
com o espaço", ensina Ivaldo Bertazzo, coreógrafo e professor de
reeducação do movimento, de São Paulo. Por volta dos 10 anos, a criança
sedentária pode apresentar encurtamento de alguns músculos, o que provoca
tensão. Esse estado tira o corpo da postura vertical, fundamental para que os
sentidos (visão, audição etc.) funcionem bem e para manter a concentração
inclusive nas aulas. Fique atento: nos garotos, as evidências mais comuns do
encurtamento dos músculos são o corpo jogado para trás, a coluna curvada ao
sentar e as pernas abertas quando estão parados em pé. Já nas meninas, um corpo
mal-educado se revela pelo abdome saliente, o bumbum empinado para trás e os
ombros contraídos. Em ambos, pescoço tenso, coluna pouco ereta e desinteresse por
esportes são motivos para deixar pais e educadores alertas. Passos de dança e o
alongamento contribuem para evitar a tensão. "A dança é a única
manifestação artística que realmente integra o corpo e a mente", afirma
Marília de Andrade, professora da Universidade Estadual de Campinas.
Brincadeiras servem para aquecer
No Espaço Brincar, em São Paulo, os professores de Educação Infantil
Sílvia Lopes, Bruno Quintas e Yvan Dourado desenvolvem estratégias lúdicas para
fazer as crianças se mexerem. Pesquisadora da cultura popular, Sílvia resolveu
ensinar alguns passos de frevo à turminha. Antes, recorreu às brincadeiras
infantis e à contação de histórias. "Não adianta trazer a coreografia
pronta", alerta a professora. "Os alunos querem participar da criação
e precisam descobrir, primeiro, que movimentos já sabem fazer."
Para esquentar e levar cada um a conhecer melhor o corpo, a professora chamou a
garotada para participar de um bolo humano. A atividade tem início com todos
sentados em um grande círculo. Aos poucos, eles vão se arrastando para o centro
da roda, orientados por Sílvia, que indica como vão se movimentar. Quando todos
estão juntos, simulam com braços e pernas adicionar os ingredientes à massa do
bolo. Em seguida, eles se chacoalham, imitando uma batedeira, e voltam para o
lugar de origem, também movendo-se pelo chão.
Em outro momento, a professora conta a história do saci-pererê.
"Escolhi o personagem porque ele se apóia numa perna só e a garotada adora
ficar assim, se equilibrando", observa Sílvia. A idéia é que, com
sombrinhas de frevo, os alunos interpretem como o saci faria para atravessar
uma floresta, cruzar um rio, desviar de cobras e onças com pulos e rolar pelo
chão. Pronto! Assim, as crianças aprendem os passos básicos do frevo. A aula de
50 minutos acaba com um relaxamento coletivo.
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Movimentos ritmados, acompanhando uma música,
ajudam a despertar a consciência corporal
da garotada. Paulo Araújo (novaescola@fvc.org.br)
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A professora de Educação Física Luciana Burgos, de Porto Alegre, também uniu a
cultura popular à consciência corporal em suas aulas na Escola Estadual de
Ensino Fundamental Nações Unidas. Há dez anos, ela percebeu que podia associar
alguns exercícios a passos do vanerão, dança típica gaúcha. Nesse caso, o ideal
é começar o trabalho pela teoria, explicando a origem da dança. Depois, entram
em cena elementos como música e figurino. "Em pouco tempo, conseguimos
formar várias duplas", conta a professora. "Deixei as aulas de
ginástica a cargo de um colega e me dediquei só ao grupo de dança."
O popular deixa a dança mais atraente
Para despertar nos alunos o interesse pela dança, é preciso levar em
consideração o repertório artístico que eles têm, deixar bem claro que homem
também dança e, claro, convidar a turma toda para participar. Há 15 anos, a
professora de Artes Marly Vendramini Cairoli, da Escola Municipal de Ensino
Fudamental Dona Angelita Maffei Vita, em São Paulo, propõe atividades variadas
para atrair alunos de 5ª a 8ª série para suas aulas.
Diversas turmas já contaram em forma de coreografia a história do cientista
Albert Sabin (1906-1993) e do pintor Salvador Dalí (1904-1989) e reproduziram
com o corpo a famosa tela Guernica, de Pablo Picasso (1881-1973). A última
inspiração de Marly veio de uma visita que suas turmas de 7ª e 8ª séries
fizeram à exposição A Herança dos Czares, uma reunião de 200 obras do Museu do
Kremlin, de Moscou, que ficou em cartaz entre abril e junho no Museu de Arte
Brasileira, em São Paulo. "Como já tínhamos estudado a arte bizantina, não
tive dúvida: desafiei os adolescentes a montar um pagode", conta Marly.
Apesar de no Brasil a palavra designar um tipo de samba, ela também denomina
uma dança russa.
Passos do pagode russo na escola
Angelita Maffei Vita: a idéia da atividade surgiu após visita a uma mostra
sobre arte na terra dos czares. Foto: Karine Basilio
Durante um mês, os alunos desenharam com o corpo figuras geométricas no
espaço, somente para esquentar: em pé, um ao lado do outro, eles faziam retas
com os braços ou, individualmente, formaram triângulos com as pernas, entre
outros movimentos. Em seguida, a turma escolheu as músicas e montou uma
coreografia de quatro minutos. "Quando a professora me convidou, achei que
seria uma chatice, porque todo mundo só gostava de black music e axé. Me
enganei", confessa Suelen Fabiano da Silva, da 8ª série. "Descobrimos
que alguns passos de black e axé podem ser adaptados para o pagode. Ficou
ótimo", diz Mauro Rogério, também da 8ª série.
Marly se livrou de uma armadilha em que muitos professores acabam caindo:
tentar ensinar balé clássico na escola. "Esse estilo vai contra a
espontaneidade da atividade. Trabalhar com as danças populares sempre dá mais
certo", alerta Hulda Bittencourt, diretora artística da Cisne Negro Cia.
de Dança. Há cinco anos, o Cisne Negro oferece o curso Vem Dançar, dirigido a
professores da rede pública paulistana, que mostra como o repertório popular
pode deixar a dança mais atraente e de que modo ela evoluiu ao longo do
tempo.
Muitas vezes vista como elitista, a dança é uma atividade de integração que se
adapta muito bem a qualquer currículo. As fontes de inspiração para as aulas
podem variar, de acordo com o projeto da escola e os interesses da turma o
comportamento dos animais e os fenômenos da natureza, por exemplo, rendem boas
atividades. A sala não precisa nem ter espelhos, como as dos grandes centros de
dança: basta ser limpa, bem iluminada e ventilada. Para a aula ser produtiva e
agradável, diga à garotada para usar roupas leves e confortáveis e tomar muita
água, como em qualquer esporte, para não desidratar.




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